LINGUAGEM

Concept: os Canela chegam à Barra do Corda.


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À medida em que conhecemos a história do sujeito que passou dois terços de sua vida entre os índios, até morrer entre os Tikuna, no Alto Solimões, sentimos que tínhamos em mãos um material precioso para abordar a temática indígena no cinema. Essa relação com os índios é o estofo político, social, estético e afetivo do projeto NIMUENDAJÚ.

O centro da narrativa é ocupado pela trajetória de um homem que luta de forma implacável e inarredável pelos seus objetivos. Afinal, o que quer Nimuendajú? Ciente das mazelas e do poder de fogo de seus oponentes - os latifundiários, o governo brasileiro, a opinião pública acerca dos povos indígenas - , nosso protagonista busca forças na estreita convivência com seu objeto de estudos, vale dizer, seu objeto de luta, justamente os povos, para a combustão de seu movere.  Nimuendajú age, encabeça, provoca, lidera ações ao mesmo tempo em que desarma as investidas do mundo hostil à sua volta. Nimuendajú é, também, ferido – inclusive fatalmente – por elas.

Por que a escolha em realizar um filme em animação? Pela profusão de possibilidades pois a imagem, no cinema de animação, não é capturada, mas erigida uma a uma. A criação é absoluta, é a Gênese, a Cosmogonia. Nos convertemos em Hesíodo ao animar, dotando de ânimo(a) ao que há de mais primário na horizontalidade do papel ou da tablet.

Com liberdade para criar Curt Nimuendajú e todo o seu universo a partir de desenhos, quisemos porém preservar a pujança “real” dos personagens. Para tanto estabelecemos uma base “live action” de filmagem e captação de som, que confere concretude às pessoas (e suas vozes) a serem convertidas em desenho.


O fato de substituirmos a imagem filmada (“real”) por imagens desenhadas (ícones gráficos), nos dá uma enorme liberdade pois estamos, de maneira evidente, representando personagens e não uma pessoas.

Elegemos como norte estilístico, o repertório de Egon Schiele, artista austríaco (1890-1918), reconhecido por imprimir em suas figuras humanas e paisagens um tratamento ao mesmo tempo incrivelmente elaborado e sintético. Suas composições, formas, linhas e gama cromática seguem o mesmo tipo de elaboração elegantemente econômica e precisa. Seus personagens são dotados de um grafismo intenso. Egon Schiele se tornou nossa referência estética, desenvolvemos nossos concepts inspirados em suas composições e traços.


Quanto à abordagem da trilha sonora, NIMUENDAJÚ estará embebido no repertório de Heitor Villa-Lobos (1887-1959), compositor que desenvolveu uma linguagem peculiar usando instrumentos e elementos da cultura regional brasileira, como canções populares e indígenas. Aliados a este repertório, os sons ambientes das aldeias, os diálogos e as canções indígenas imprimirão um tom afetivo e documental.


     
Corrida de Toras dos Canela/Rankokamekrá. Aldeia Escalvado. MA / Foto: Toninho Muricy.

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